Salamandra - Montanhismo e Escalada Peru Salamandra - Montanhismo e Escalada

[06/05/2007]

Cerro Torre - Face Sul

Fonte: montanhas.wordpress.com

A face sul do Cerro Torre é o obstáculo mais grotesco da Patagônia, se parece com uma garrafa de vinho com sete mil pés (aprox. 2300m) verticais e inclinados – e uma altitude de 3.133m em relação ao nível do mar. Um íngreme campo de gelo adere a face por dois terços da altura. O muro abaixo do gelo é escuro e monolítico, e não demonstra fraquezas. A parte superior, o pescoço da garrafa, é liso e inexpressivo e incompreensivelmente exposto, tanto para a milha vertical abaixo (1,6 mil metros) como para as tempestades austrais que varrem a capa de gelo. O planeta Terra talvez não tenha outra peça tão impressionante de terreno alpino.

Em novembro de 1987, os eslovenos durões, Silvo Karo e Janez Jeglic, começaram a face sul acima. Karo, um escalador sombrio e muito forte, com antebraços parecidos com os do “Popeye”, e Jeglic, um montanhista intenso e rude, eram veteranos em três primeiras ascensões patagônicas (no Fitz Roy, na Torre Egger, e na face leste do Cerro Torre). Pedras caindo golpearam constantemente os dois durante as sete primeiras cordadas no Torre, difíceis e perigosas em terreno misto de gelo e rocha na base da face sul.

Acima, os eslovenos escalaram longas seções de rocha podre e de inclinação negativa em artificial, com passagens intercaladas ocasionais de escalada livre. Eles tiveram que escavar o gelo em praticamente todos os movimentos, tanto para inserir peças em artificial, como para encontrar agarras para as mãos e pés. Durante os dois meses seguintes em campanha e debaixo de constantes tempestades patagônicas, Jeglic e Karo fixaram mais de 760 metros de cordas, porém ainda restavam mais de 300 metros de um campo de gelo acima. As cordas restantes que possuíam estavam muito desgastadas para serem usadas, então emprestaram uma corda um pouco melhor de um time suíço e se prepararam para atacar o topo.

O clima tinha outros planos. Durante três semanas e meia, nenhum sinal de bom tempo durou mais que poucas horas. Finalmente uma oportunidade: o céu estava estrelado quando os dois deixaram seus bivaques abaixo do El Mocho à meia-noite no dia 19 de janeiro de 1988, mas assim que alcançaram suas cordas por volta das duas da manhã, ventos nauseantes trouxeram nuvens escuras e tensas pelo céu noturno. Eles se abrigaram em uma greta e ficaram jogados de frente a seus limites de estadia – suas passagens aéreas e vistos argentinos expiravam.

Ao meio-dia do dia seguinte eles haviam escalado para além de suas cordas fixas até um ponto 100 metros abaixo do campo de gelo. Diante deles, uma faixa com mais de 10 metros de negativos que poderiam eliminar suas tentativas de retorno uma vez ultrapassados. “Atrás de nós havia um verdadeiro furacão”, disse Karo. Neste momento ele notou que a corda suíça estava “sangrando” nylon de uma perfuração tripla. “Estávamos nas mãos do vento e a 800 metros do chão”, disse Karo. “Ver uma corda podre não foi nada animador”. Eles cortaram o final rasgado da corda e escalaram os tetos. Na virada, foram abraçados por ventos violentos e neblina fina. A única maneira de sair dali era escalando até a Via do Compressor, para alcançarem uma linha de retirada.

Um estrondo infernal soou acima do topo do Cerro Torre. O gelo fino cobriu seus equipamentos. Estavam desorientados. Os dois gelados e o vento cortante se recusava a deixá-los escalar ou mesmo vestir mais roupas. “A tempestade era completamente louca”, disse Karo. “Não conseguíamos nos comunicar”. Finalmente alcançaram o campo de gelo, que inclinava para o oeste, diretamente para a fúria do vento. Blocos de gelo do tamanho de televisões descolaram das partes mais altas da montanha, despencaram pela tempestade e explodiram ao lado deles. Desesperados, eles atravessaram direto para a Via do Compressor. “Tivemos a grande idéia de filmar, e assim carregávamos uma filmadora de 16mm, ao invés de uma quarta ferramenta de gelo”, lembrou Karo. “O problema é que estava ventando demais para usar (a filmadora), ao mesmo tempo que era muito dinheiro para se jogar fora. Então segui escalando com apenas uma ferramenta”.

Bem à direita, Jeglic fez segurança de dois parafusos de gelo frouxos. Chacoalhado pelo terrível vento, Karo começou a sua travessia. “O gelo era inclinado, 70 ou 80 graus”, disse, “e eu tinha uma luva de lã, então eu congelava até os ossos cada vez que tentava me segurar melhor com a mão sem luva”. Minutos depois de ter começado sua travessia, uma rajada feroz arrancou Karo da parede. Rodopiando o campo de gelo abaixo ele pensou duas coisas: “Janez vai conseguir me segurar?” e “A corda arranhada vai agüentar?”. Karo sentiu um puxão gigante no meio do seu corpo enquanto batia em algumas rochas saindo do gelo.

Ele havia caído mais de 30 metros, parando apenas a uma pequena distância da base do platô de gelo, à beira do abismo. “Eu não conseguia acreditar que continuava amarrado à parede”, lembra Karo. Ele escalou de volta até Jeglic, diretamente até seu companheiro depois do pêndulo selvagem que passara. “Mais fácil do que fazer a travessia não?”. Mais tarde naquela noite eles alcançaram a Via do Compressor. Quarenta e seis cordadas de uma nova via deixadas para trás. Eles haviam planejado descer pela face leste, onde haviam escalado anteriormente na temporada de 1985-86, mas perceberam que seria impossível com apenas uma corda curta. Nenhum dos dois conheciam a Via do Compressor, mas não tinham opções. Batalhando através da escuridão e a tempestade nas horas iniciais da manhã, eles terminaram exaustos em uma caverna natural de neve no Col da Paciência, o col alto a cerca de 500 metros de altura, nevado e de terreno misto, que marca o início da Via do Compressor. “Não conseguíamos acreditar que a tempestade que nos acompanhara durante as últimas 24 horas não conseguia mais nos alcançar dentro da caverna”, disse Karo. “Estávamos muito felizes”.

Em outubro de 1997, Janez Jeglic faleceu próximo do cume noroeste do Nuptse, de 25,400 pés, após escalar a face oeste com Tomaz Humar.

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