[16/05/2007]
Cerro Tronador - Bariloche, Argentina
Pequeno relato da escalada feita pelos montanhistas Eduardo Pedro e Reginaldo J. Carvalho.
Por: Eduardo Pedro
Chegamos em Bariloche no dia 17/12/2006 e a chuva e o frio nos davam as boas vindas. Praticamente todos os escaladores estavam indo para o vale encantado curtir umas escaladas esportivas, pois esse pico fica mais ao norte e rola um micro-clima que não deixa chegar muita chuva.
Nós, na contracorrente, decidimos manter o plano, seguir para o sul e se enfiar nas montanhas para tentar a ascensão do Pico Argentino do Cerro Tonador. Claro que sabíamos que o tempo lá estava pior, mas resolvemos esperar na base da montanha. Olhando por uma perspectiva otimista, pelo menos não haveria crowd, afinal com chuva só os mais fissurados para encarar a empreitada.
Chegamos em Pampa Linda e a trilha de acesso para a montanha estava fechada, então fizemos um pernoite por ali. Um casal de alemães com um pouco mais de pressa resolveu ignorar os guarda parques e subiram assim mesmo. A chuva persistiu mais um dia e só pudemos chegar no refúgio, que também é a área de acampamento base, no dia 21/12.
Na subida, encontramos os alemães voltando e nos falaram que haviam tentado o Pico Argentino, mas o tempo ruim os fez desistir a apenas 20 metros do cume. Com eles estava o Andréas, um amigo alemão que conheci em outra temporada na patagônia. Ele nos alertou que o tempo lá pra cima estava horrível e que iriam para algum lugar ao norte para escalar com o tempo bom.
Sem deixar a nossa motivação diminuir decidimos continuar com a esperança das coisas mudarem. Quando chegamos no Refúgio Otto Meiling o tempo realmente mudou, só que para pior. O Céu que tinha algo de azul ficou cinza chumbo e uma nevasca caiu torrencialmente. Ficamos dois dias literalmente presos no refúgio.
No dia 24/12 amanheceu melhor possibilitando a montagem das barracas e à medida que íamos agilizando o acampamento a névoa foi dissipando, o frio diminuindo, o vale começou a aparecer e lá pelo meio dia a montanha se mostrou entre as densas nuvens.
Todos ficaram muito eufóricos, nós por finalmente ver a montanha e a galera que trabalha no refúgio por enfim, poder sair um pouco.
Do refúgio o Federico, guia de montanha local, botou a maior pilha: "Tienes que escalar la montaña".
Era o incentivo que faltava, pois já estávamos argumentando para começar a arrumar os equipos. Pegamos alguns way points da rota e fizemos um croqui com as informações cedidas pelo nosso novo amigo.
Acordamos na madrugada do dia 25/12 com um céu estrelado e depois de um rápido café saímos caminhando encordados com os grampons clipados e o piolet na mão.
Os primeiros dois terços da escalada fluíram bem rápidos, graças ao gelo de boa qualidade. Apesar de não haver caminhos trilhados no gelo e das gretas estarem tampadas, devido à grande quantidade de neve que caiu durante a semana, tudo foi tranqüilo até o local conhecido como entrada de la deprecíon.
ponto até o cume ficou mais puxado, o gelo foi substituído pela neve em pó que estava sendo depositada pelo forte vento que vinha do colo entre o Pico Argentino e o Internacional. Chegamos na rimaia e pensávamos em descansar e se alimentar por aí, porém o vento desprendia pedriscos e gelo do cume e os depositavam nos nossos capacetes. O barulho nas nossas cabeças fez com que o descanso ficasse para depois e entramos em ação novamente.
Escalamos o trecho final de 20 metros, que é a parte mais exposta da rota normal do Pico Argentino, e finalmente chegamos no cume, congelando e feliz da vida. Ficamos menos de cinco minutos devido ao vento.
Baixamos até as barracas sem problemas e gratos pelo presente de natal. Os dias que se seguiram voltaram a ser de muita neve e vento, porém só até a virada de ano, que por sinal, passamos no vale do Cerro Catedral. Mas essa já é outra história...