[18/04/2007]
Morro Pelado, um lugar de natureza conservada, mistérios e aventura
Por Reginaldo José de Carvalho
O Morro Pelado, 1044 metros, está situado na Serra do Mar do município de Joinville. Uma das montanhas mais misteriosas da região, seu formato peculiar instiga e atrai aventureiros, místicos e principalmente escaladores.
Trata-se de uma formação que desponta 200 metros sobre um dos trechos mais conservados de Floresta Atlântica do estado de Santa Catarina, onde ainda abriga espécies de fauna e flora endêmicas e ameaçadas de extinção, além de deter nascentes do rio Piraí, importante manancial de água, responsável por 30% do abastecimento público de Joinville.
Sua origem geológica é remota e complexa, está associada aos processos de soerguimento da Serra do Mar que iniciaram há aproximadamente 600 milhões de anos, no inicio da separação da África e América do Sul. Segundo Gonçalves et. all. 2002, o Morro Pelado está inserido na Bacia Vulcano-Sedimentar de Joinville, e é formado por uma rocha sedimentar denominada conglomerado, caracterizado por uma mistura de diversos fragmentos arredondados (seixos) de outras rochas, envoltos em uma matriz ou cimento arenoso. Esta rocha denota que antes de o Morro Pelado e seus vizinhos serem montanhas, formavam talvez o leito de um grande rio, que através de processos tectônicos foram soerguidos.
Desde a sua formação até a atualidade ocorreram modificações significativas, como movimentações na crosta e alternâncias climáticas, que influenciaram os processos de modelagem do relevo resultando na sua forma atual.
No mapa feito por Jerônimo Francisco Coelho de 1856, é identificado como Pico do Corcovado, toponímia atribuída pela sua forma vista de Joinville. Já o nome Morro Pelado provém de sua aparência, por ser um monólito desprovido de vegetação em algumas áreas.
Existe uma lenda, publicada em um livro intitulado Terra Oca, do autor alemão Reinold Berhnard. Nesta obra do final do século XVII, o autor acredita que a Terra possui entradas para o seu centro, onde há um outro mundo, diferente do mundo externo, e cita que entre o Morro Pelado e o Castelo dos Bugres, existe uma das entradas para o centro da Terra. Segundo relato de moradores locais há muito tempo atrás, foram achados artefatos de cerâmica provavelmente de gênese indígena Itararé ou Xokleng na gruta existente no pé da montanha, fato que comprova que a mesma era freqüentada antes dos colonizadores. Não se sabe sobre o destino das peças.
Quanto a registros mais antigos de ascensão, são de membros do Centro Excursionista Monte Crista – CEMC, que andavam pela região entre os anos de 1945 a 1960.
Os primeiros escaladores que iniciaram investidas no Pelado foram integrantes do centro excursionista Barriga Verde - CEBV, no ano de 1988, onde realizaram uma tentativa de abertura de via na aresta noroeste. Participaram da empreitada Ingo e outros.
Após um hiato de dez anos outros escaladores retomaram as investidas para escalar as paredes do Morro Pelado. A primeira via aberta foi a Discórdia 5.º V+ E4 100m, concluída em 06/07/98, após algumas investidas e conflitos entre os conquistadores. Essa via, composta por três cordadas, duas em rocha e a última em trepa mato, exige psicologicamente dos escaladores pelo fato de ser um tanto exposta e também pela rocha, que apesar de ser bem firme, precisa-se prestar atenção, pois as agarras as vezes enganam. Participaram da conquista: Daniel J. Casas, Reginaldo Carvalho, Theno H. Viebranz, Marius Bagnatti e outros ajudantes.
A segunda via aberta foi a Tá na cara, 5.º VI E2 150m, conquistada em 15/04/2000 por Alessandro Emerson Rosário "Jesus", Daniel Juliano Casas e Reginaldo José de Carvalho. Essa é a maior via e considerada para muitos a mais bonita da montanha. Alterna lances delicados de trepa mato, escalada vertical em agarras, alguns buracos, uma passagem de teto, intercalando proteções fixas e móveis.
Quem observa o pelado de oeste pode notar com facilidade uma grande fenda que corta a montanha, batizada como Fenda Drº Raimundo Bernardo 4.º V E2 100m, em alusão ao escritor da Terra Oca. Conquistada em 25/05/2000 por Reginaldo José de Carvalho, Fabíola Girardi e Alexandre Gustavo Langer “Topera”, é a única via toda em móvel, com lances em chaminé e agarras quase sempre molhadas ou úmidas, realmente uma via tradicional.
Em 2002 foi encontrada a linha da tentativa do pessoal do CEBV. Como a via estava abandonada se deu a sua finalização, sendo batizada de Nos tempos da brilhantina 5º+ VI+ 80m E3, conquistada por Daniel J. Casas, Reginaldo Carvalho e Eduardo F. Pedro.
Outra via que caracteriza bem as escaladas no Pelado é a Tudo em Família 4.º V+ E3 55m, aberta em 22/06/2003 por Alessandro Emerson Rosário "Jesus" e Marcio Hoepers, via de duas cordadas com lances de agarras bem expostos.
Atualmente o Morro Pelado possui seis vias de escalada, onde o estilo predominante é o tradicional. Vias com proteções mais longas e escaladas vertical em agarras, é com certeza um dos setores de escalada mais exigente da região.
As proteções são predominantemente fixas, somente em algumas vias é utilizado equipamento móvel em fendas e buracos. A escalada é delicada, pois alguns seixos não estão tão firmes aumentando o nível de adrenalina. A maioria das vias acessam o cume.
Mais recentemente foram descobertos no morro dois setores negativos forrados de agarras e com altura variando de 20m a 40m, com grandes possibilidades para escalada esportiva. Possivelmente será um dos setores esportivos mais fortes da região. No primeiro setor, o menor, já existe uma via chamada Carrapatos me Mordam 7c, conquistada por Daniel Casas, Reginaldo Carvalho e Alexandre Langer.
Como é uma montanha isolada, para acessá-la é necessário percorrer uma trilha longa, não muito pesada, mas que requer um bom senso de orientação, pois há uma série de bifurcações que levam a lugares distintos.
A trilha percorre uma floresta com inúmeros exemplares de árvores e animais, atravessa vários rios, há janelas que proporcionam vistas fantásticas do próprio Morro Pelado, do Castelo dos Bugres e Castelinho.
No cume há um belo visual, uma verdadeira ilha no imenso tapete verde. Destacam-se na paisagem os vizinhos Jurapê, Central, Vestido, Castelo dos Bugres, a Serra do Quiriri, a cidade de Joinville, a Baia da Babitonga o Planalto Norte e muito mais.
Para que não aconteçam situações indesejáveis, recomenda-se não ir ao Pelado sem conhecer, necessita-se de uma pessoa que conheça muito bem as trilhas e vias de escaladas. É bom lembrar também que lá é um lugar natural e frágil, que deve ser respeitado praticando as técnicas de mínimo impacto, pois somente assim poderemos conservar suas belezas naturais e lendas.
Reginaldo J. de Carvalho é instrutor da Salamandra Montanhismo e Escalada, montanhista, geógrafo e diretor ambiental da Associação Joinvilense de Montanhismo.