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[28/10/2008]

Cerro Catedral - uma boa iniciação patagônica

Por: Reginaldo J. de Carvalho – Joinville/Santa Catarina

Escrever sobre o Cerro Catedral é um grande desafio, ainda mais para um Brasileiro, mas a forte relação que existe entre a montanha e o montanhista supera os limites político-administrativos e amplia a concepção de Mundo.

O Cerro Catedral é um conjunto de montanhas que está localizado na região da alta Patagônia Argentina, província de Rio Negro, município de San Carlos de Bariloche, a área encontra-se inserida em sua totalidade dentro dos limites do Parque Nacional Nahuel Huapi, o primeiro da Argentina criado em 1934.

Trata-se de um dos melhores locais para a prática da escalada em livre utilizando equipamentos móveis. No inverno, quando as encostas ficam nevadas, o Cerro Catedral se torna um dos principais centros de esqui da América do Sul.

Outro topônimo, muito utilizado por escaladores para se referir a esse lugar é simplesmente “Frey”, em alusão ao Refúgio que leva o nome do pioneiro argentino Emílio Frey, um dos fundadores do Clube Andino Bariloche em 1931 (Garibotti 2007, p.64), há também uma linda agulha que leva o nome do saudoso andinista.

Em toda a extensão do Cerro Catedral, existem inúmeras torres de granito compacto às vezes polido, dependendo da face, possui tons amarelo laranja e gris. Essas belas formações rochosas presenteiam os escaladores com excelentes sistemas de fendas, proporcionando uma escalada técnica, limpa e estética.

A paisagem formada por esse alcantilado de torres com cumes aguçados, cercadas de lagos azuis, campos de neve e florestas de gimnospermas em plena Cordilheira do Andes, encanta qualquer visitante que se aventure percorrer suas trilhas e vias de escalada.

Dentre as principais agulhas estão a imponente Agulha Principal 2405m, um dos pontos culminantes do conjunto, a majestosa agulha Campanile Esloveno, seguida da Piramidal, La Vieja, Agulha Frey, Cohete Lunar, CAC, Muralha da China entre outras.

A primeira agulha a ser escalada foi a Principal, conquistada em 11 de fevereiro de 1943, por Gustavo Kammerer e Pablo Fisher após várias tentativas.

A Campanile Esloveno foi a segunda a ser conquistada em 13 de Fevereiro de 1952, por Domingo (Dinko) Bertoncelj e Francisco Jerman, considerada a via mais difícil para época (Fonrouge 1999, p.34 – Garibotti 2007, p. 65).

A via normal da Principal ainda hoje é uma das mais freqüentadas do lugar, por não apresentar grandes dificuldades e que oferece inesquecíveis panorâmicas dos lagos e vulcões desse lindo setor andino.

Segundo o escalador de Bariloche, Rolo Garibotti (2007, p.65), foi nas agulhas do Cerro Catedral que se formaram várias gerações de escaladores de alto nível da Argentina, desde Jose Luis Fonrouge, Teo Plaza e o talentoso Sebastian de La Cruz.

Também passaram por lá, grandes nomes da escalada internacional como inglês Paul Pritchard e o suíço Michel Piolla que deixou um bom legado de vias muito bem elaboradas como a Objetivo Luna no Cohete Lunar, Deriva de los Incontinentes na Tapia, Imaginate na Campanile.

Há mais de duas décadas, várias gerações de brasileiros também já tiveram a oportunidade de escalar e conquistar vias nas agulhas do Cerro Catedral.

Para quem não gosta do calor do verão, ganhar latitude até a Patagônia se faz uma excelente opção.

Agulha Campanile Esloveno

Dentre as agulhas que compõem o Cerro Catedral, a Campanile está entre as prediletas quando se trata de vias identificadas como três estrelas (***) no guia local de Rolando Garibotti.

Seu nome “Campanile” é atribuído ao formato peculiar de sineta, e Esloveno aos seus conquistadores, imigrantes eslovenos que a escalaram em 1952 pela face oeste.

Esta elegante agulha localiza-se na porção sul do Cerro Catedral, é uma das maiores e mais majestosa do conjunto, conta com mais de uma dezena de vias em todas suas faces.

Por estar mais distante das áreas de acampamento, há um grande bloco denominado como “Botoque da Campanille” situado próximo à base da agulha, um bom bivaque para quem pretende passar mais tempo escalando as agulhas do setor sul do Cerro Catedral. No próprio bodoque, existem algumas vias para brincar entre uma escalada e outra.

Quanto às vias, existe mais de uma dezena nas faces do Campanille Esloveno, para escalar com tranqüilidade é necessário que o escalador deva estar dominando um 7ºgrau brasileiro, além de prática com proteção móvel, deve-se estar atento às condições do tempo e nos rapéis.

Entre as vias da Campanile, as mais procuradas são as de três estrelas***, consideradas as mais estéticas, com excelentes opções de colocações, boa textura e solidez da rocha.

O presente artigo trás uma seleção onde foram escolhidas quatro vias que estão identificadas e descritas a seguir:

Lembrando que a graduação utilizada no Cerro Catedral é a Francesa e todas as vias necessitam de equipamento móvel como um jogo de friends, jogo de nuts, Camalots, C4 ou equivalentes e fitas longas para as costuras.

Fonrounge Bertoncelj 6b 120m

Via clássica que transcorre a cara norte da agulha, utiliza-se várias técnicas para escalar as suas 4 cordadas, agarras, chaminés, diedros, entalamentos e oposição. No livro de Fonrouge (1999), há uma excelente e detalhada descrição que transporta imediatamente a imaginação do escalador para essa linda via.

Imaginate 6a+ 100m

Via fácil que transcorre o centro da cara norte, escalando em agarras, fendas (entalamento e oposição), lacas e a curiosa seqüência de buracos na última cordada, que oferecem ótimas proteções naturais. Esses “uecos” são chamados de marmitas formadas pela ação da água e do vento, na segunda reunião há um buraco que comporta tranquilamente duas pessoas, um verdadeiro terraço, onde se tem uma linda vista do Lago Nahuel Huapi, Bariloche e toda extensão da dorsal andina até o Vulcão Lanin mais ao norte.

Excuse me Señora Give me la hora 7a+ 100m

Via moderna bastante aérea e estética que escala próximo a afiada aresta noroeste da agulha, há momentos na escalada, onde se observa as diferenças entre a ensolarada face norte e a sombreada oeste. Trata-se de uma rota concentrada com diversos pontos chaves, escalando agarras, buracos, fissuras e tetos. É uma via mista que alterna proteções móveis e fixas, a qualidade das proteções e o traçado da rota dispensam comentários.

Bush Goin 5+ 120m

Via fácil de 4 cordadas,  uma das mais repetida da agulha, excelente opção para adaptação ao lugar e reconhecimento da agulha, transcorre pela face leste escalando agarras, diedros,  fendas (oposição e entalamentos).

Deve-se prestar atenção nos rappéis, pois a via tem histórico de enroscos de corda em bico de pedra, mas se puxando a corda com cautela não haverá problemas somente curtição.

Há opções melhores para descer a agulha como as vias Excusime señora give me la hora e Imaginate, que possuem boas reuniões fixas de chapas com argolas, porém deve-se se manter cuidado no puxar a corda.

Escrevendo em poucas palavras, o Cerro Catedral ou Frey é um lugar mágico e obrigatório a todos os escaladores, pois se trata de uma excelente escola de escalada livre em móvel, sendo para muitos, o portal de entrada para as grandes escaladas patagônicas.

Se há disputa e rivalidade entre brasileiros e argentinos, que seja somente no futebol, pois é muito bom escalar e vivenciar as belezas do território de los hermanos.

E para que sempre haja harmonia, deve-se respeitar a ética da escalada local, as pessoas, as regras do Parque Nacional Nahuel Huapi e o mais importante, ajude a conservar essa grande riqueza que é de todos.

Saiba mais sobre o Cerro Catedral:



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