[04/09/2008]
Travessia Araçatuba-Monte Crista às cegas
Por: Reginaldo José de Carvalho
Essa extensa travessia com aproximadamente 60 km, está situada entre os Estados do Paraná e Santa Catarina, percorre terrenos de um grande maciço granítico que forma as serras do Araçatuba, Papanduva, Itararé, Facão, Imbira e Quiriri. Trata-se de um desafio para os montanhistas que gostam de caminhar pela Serra do Mar.
Iniciamos nossa caminhada exatamente às seis da manhã de sábado, dia 30 de agosto, na fazenda do Srº Amadeu, localizada no sopé da encosta ocidental do Araçatuba.
Durante a subida, contemplávamos seus lindos campos de bolders espalhados pelas encostas verdejantes de perfis suaves, observávamos exemplares de plantas típicas do ambiente alto-montana, sem muito esforço, galgamos seu amplo e ventoso cume. Uma breve parada protegida do vento, entre goles de chá e mastigadas, calibrávamos nosso GPS e carta topográfica, o frio de -2ºC congelava nossos futuros planos.
Sem muitas delongas, assinamos nossos garranchos tremulantes no livro de cume e seguimos nossa rota finita, porém longa, para o sul, não teve muito problema para transpor o primeiro obstáculo, o vale do rio pinhal, que drena para o interior e separa o Araçatuba do Baleia.
Após o Baleia, adentramos em um capão de mato com muito bambu (chusquea mimosa), que de mimosa não tem nada, após a bizarra varação, entramos em dois lotes com plantações de pinnus, onde em seguida ganhamos o complicado e emaranhado sistema de estradas. Esse trecho possui uma grande área, praticamente ¼ da travessia, com a recente retirada do pinnus, as estradas se multiplicaram dificultando o traçado do percurso, andamos o dia inteiro por esse trecho chato, feio, poeirento e cheio de sobe desce intermináveis.
Demos graças quando chegamos aos campos que demarcam o sopé da Imbira, já era 18:30h e havia anoitecido, resolvemos parar um pouco ali, buscamos abrigo nas margens de um rio, o qual possuía um bom lajedo onde fizemos uma fogueira para esquentar o sangue. O Arlindo sacou seu fogareiro para preparar uma sopinha quente, ali ficamos nos aquecendo, descansando, hidratando, mastigando e fumaceando.
Diante da mordomia, resolvemos tirar um cochilo até a meia noite com objetivo de descansar nossas carcaças. Na hora de acordar, o celular do Alberto desperta um som de corneta de alvorada militar, Arlindo ainda meio sonolento, manda o sargento para aquele lugar, pensando que estivesse em sua época de quartel.
Saímos cuspidos contra vontade de nossos quentinhos sacos de dormir já umedecido pela condensação da manta térmica.
Alimentamos a brasa da fogueira, esquentamos uma água no fogareiro, mastigamos, bebemos, arrumamos, apagamos o fogo e zarpamos em direção a cumeada da Imbira, aos poucos ganhávamos altitude, observando o céu estrelado sem lua, com as luzes das cidades e vilas do planalto catarinense e paranaense.
Ao chegar no sistema de crista, demos de cara com uma ventania que movimentava muita umidade, a temperatura estava abaixo de zero, favorecendo a formação de um espesso nevoeiro, que aqui nas bandas do Quiriri chamamos de Tapume. Os cristais de gelo chicoteavam nossos anoraques, que em pouco tempo ficaram encharcados e gelados.
E assim fomos às cegas se orientando, nas paradas para obter coordenadas na carta para alimentar o sagrado aparelhinho, tremíamos junto com as guerreiras caratuvas encravadas nas rochas.
A pressão psicológica para conseguir seguir pelo menos a direção certa, era mais forte que o frio e o cansaço, alternávamos a dianteira vidrados feito cães farejadores, assim se passou a madrugada.
Durante uma troca de turno, já amanhecendo, desligamos nossas frontais e eis que de repente, vimos às silhuetas mais esperadas de toda empreitada, eram os familiares picos Quiriri 1538, Klein 1508 e Raitz 1528, em fim, depois de tudo isso, estávamos em casa.
A descida em direção ao Monte Crista foi tranqüila, o tapume ainda nos pregou uma peça básica próximo ao Morro Campo Alegre 1395, nos fazendo andar em circulo, perdidos no próprio território, hehehe. Após a brincadeira sem graça, continuamos descendo se despedindo do tapume que cobria os cumes mais elevados do Quiriri, já apresentávamos as dores do percurso acentuadas pelo peso dos anos.
Chegamos meio dia no platô 900, onde comemos o restante do suprimento, o Arlindo passou um rádio para o Mafra agilizar nossa carona e iniciamos a descida final.
Para descer o Monte Crista foi necessário um pouco de paciência e cautela para não se machucar, desce degrau, escorrega, freia, segura e nesses tons, seguimos a longa descida até encontrar a ponte pênsil que leva direto à cabana do Srº Hari, que nos aguardava com seu cigarrinho entre os dedos, e claro, como sempre, já sabia de tudo. E isso já era meio da tarde de um domingo qualquer de 2008.
Falô rapaze, obrigado pela empreitada, até a próxima.
Reginaldo José de Carvalho.