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[20/03/2009]

Castelo dos Bugres, o ponto de partida para as montanhas do mundo

Por: Reginaldo José de Carvalho

O Castelo dos Bugres 998m é um dos patrimônios naturais de Joinville, está localizado na Serra do Piraí, onde se encontram as nascentes do rio homônimo, importante manancial responsável por 30% do abastecimento público de município.

Encontra-se nos domínios de um dos maiores remanescentes de Floresta Atlântica do estado de Santa Catarina, toda a área está inserida nos limites da Área de Proteção Ambiental Dona Francisca, criada pelo Decreto Municipal nº 8.055, de 15 de março de 1997, com o objetivo de proteger os mananciais e os remanescentes florestais.

Esta curiosa formação rochosa desperta a atenção dos visitantes, é constituída por um conglomerado compacto, rocha de origem sedimentar de aproximadamente 600 milhões de anos, caracterizada por uma mistura de diversos fragmentos arredondados (seixos) de outras rochas, envoltos em uma matriz ou cimento que dão um aspecto de concreto.

Desde a sua formação até a atualidade, houveram modificações significativas como movimentações na crosta e alternâncias climáticas que influenciaram nos processos de modelagem do relevo, resultando na sua forma atual, semelhante à de um castelo com uma grande torre principal composta por blocos sobrepostos de formas arredondadas.

Do alto da referida torre, tem-se uma magnífica visão panorâmica, onde se pode observar toda a região norte de Santa Catarina, desde o litoral até o planalto e parte do território paranaense, sendo um dos melhores mirantes naturais de toda a região.

Seu nome, traduzido do alemão “Das Bugraschloss”, gerou muitas lendas com a chegada dos colonizadores europeus. Acredita-se que os indígenas foram os primeiros freqüentadores da montanha, daí a origem do nome, pois os colonizadores denominavam os nossos índios de bugres.

Existe uma lenda relatada em forma de versos, na edição de 11 de novembro de 1886, do periódico joinvilense Kolonie-Zeitung, que diz o seguinte:

“...perdida entre as brumas, a brisa da montanha espalha pelo arvoredo o segredo do Castelo dos Bugres. A lenda diz que um cavalo branco preso dentro do espinheiral aguarda a descida da ponte movediça que irá permitir a saída do senhor, um cacique que um dia ali penetrou. Enquanto o senhor não sair do castelo não haverá libertação para o pobre cavalo angustiado. O cacique porém, ainda irá permanecer por muito tempo no interior do castelo, enquanto no lado de fora, pela estrada, os apressados irão passando, espreitando a íngreme formação e seu guardião”...

Outra lenda que mistifica o Castelo dos Bugres é a famosa entrada para o centro da Terra, descrita no livro intitulado “A Terra Oca” do escritor alemão Raymond Bernard que acredita na existência de uma população evoluída residente no interior do planeta, o autor não faz referencia ao nome da montanha, mas sim a localidade, sedentos de curiosidade, muitos aventureiros desbravam as entranhas do Castelo dos Bugres e do seu visinho, o Morro Pelado em busca de pistas sobre a referida entrada que nunca foi encontrada.

As escaladas

Conforme mencionado, o Castelo dos Bugres já era freqüentado por indígenas antes da chegada dos colonizadores, supõem-se que a primeira ascensão realizada pelos ditos “civilizados”, pode ter acontecido entre os anos de 1850 a 1890, período relacionado à abertura da Estrada Dona Francisca.

Nos livros de história de Joinville e da estrada Dona Francisca, encontram-se registrados momentos de conflitos entre indígenas e colonos ocorridos na Serra do Mar, tendo o fatídico assassinato do Sr. Germano Lenschow em 1873 como prova desses confrontos.

Falando de escalada, o Castelo dos Bugres apresenta atualmente 10 vias ao todo, são vias curtas de no máximo40 metros, algumas em top rope, outras em móvel e lances de boulders de vários graus de dificuldade.

As primeiras investidas de escalada no Castelo foram feitas em 1987, onde uma equipe de escaladores do Centro Excursionista Barriga Verde – CEBV fixaram os primeiros grampos e escalaram a primeira via a Chaminé do Cacique IV, localizada no corredor que acessa o salão inferior do Castelo.

Os grampos fixados por essa equipe ainda estão lá até os dias de hoje, o mais utilizado é o do topo da Torre Norte, que serve para realizar um rappel na referida torre, prática muito comum entre os visitantes dessa montanha.

Houve um intervalo de 10 anos até outra geração de escaladores abrirem novas vias nas paredes do Castelo, nos anos de 1996, 1997, 1998 e 1999 os escaladores Daniel Juliano Casas e Reginaldo José de Carvalho, acreditaram no potencial do lugar e abriram 8 vias que até hoje possuem poucas repetições.

Sapo vaca 8b
A via inicia no salão do Castelo, próximo da pedra equilibrada e termina na base do teto do salão, trata-se de uma via dura, extremamente técnica e dolorida, onde se escala em regletes e buracos mono e bidedos, possui três proteções fixas e a parada.

Chaminé do Cacique 4.º
A primeira via do pico localizado no corredor de acesso ao salão, escalada a primeira vez pelo pessoal do CEBV em 1987, apresenta uma abertura perfeita que se encaixa em vários biotipos, no final da chaminé há uma transversal até alcançar a segunda chaminé que leva ao pré-cume. Não possui proteções fixas e há poucas opções para proteção móvel, a primeira chaminé é escalada praticamente em solo até alcançar uma árvore na base da segunda chaminé que serve de ponto de parada ou proteção. A segunda chaminé é fácil e curta, porém aérea.

Torre Norte 8c A2 (proposta)
Trata-se da via mais longa e difícil do pico que transcorre na face da Torre Norte, transpondo os 4 blocos arredondados sobrepostos. Encontra-se equipada com chapeletas e grampos até o último bloco que ainda não foi liberado por completo. Os lances são bastante técnicos e aéreos, a inclinação levemente negativa contribui para a dificuldade dos lances, o primeiro bloco é feito em artificial em clifs.

Bolder do pingo 7a
Boulder aberto pelo Ronaldo Nativo, amigo e padrinho da escalada joinvilense, pela sua experiência conseguiu elaborar uma bonita linha onde até o momento não se cogitava. Localizado no salão abaixo da pedra equilibrada é uma ótima opção para quem curte movimentos delicados.

Terra Oca 8c (proposta)
Via técnica equipada com chapas, se encontra na falésia abaixo do salão, perfil levemente negativo com lances bem técnicos, tomar cuidado, pois algumas agarras podem quebrar.

Django Bango 6.º sup
A lado esquerdo da Terra Oca bem no começo da falésia é escalada com corda de cima.

Entranhas de Atlântida 7a
Outra via conquistada pela dupla, uma belíssima fenda localizada abaixo do salão, via bastante estética e limpa, possui apenas um grampo para rapelar, a escalada é feita utilizando técnicas de progressão em fendas como: entalamentos e oposição. Para fazer a via é necessário um jogo de friends e nuts, a fenda possui bons locais para colocação, há poucas repetições.

Cavalo Branco 5.º A2
Bonita via que inicia na entrada do acesso para o salão, os primeiros lances são feitos em artificial para transpor uma barriga que ainda não foi liberada, após a barriga, a via prossegue fácil escalando em agarras e fissuras com boas opções para proteção móvel.

Jacatirão 6.º
Outra via técnica de reglete que exige força nos dedos e levitação, atualmente é feita em top rope onde há um grampo no topo da via, localiza-se à direita da via cavalo branco.

Cara Sul 5.º
Boulder na pedra do mirante sul, um tanto alto porém fácil é possível montar um top rope.

Diante de tanta riqueza histórica, cultural e principalmente natural o Castelo dos Bugres merece ser conservado e protegido, já quanto à escalada, ainda apresenta um bom potencial para abertura de vias esportivas de auto-nível, um dos grandes projetos do lugar é transpor o teto do salão, um ótimo desafio às futuras gerações.

Vamos conhecer e valorizar o que é nosso.

Boas escaladas.

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