Salamandra - Montanhismo e Escalada Peru Salamandra - Montanhismo e Escalada

[08/06/2009]

123 anos da primeira ascensão ao pico Jurapê

Por: Reginaldo José de Carvalho

Foi nas íngremes encostas do Jurapé que se deu a primeira manifestação montanhística de Joinville, o primeiro registro de sua ascensão é do final do Século XIX, quando, no dia 5 de junho de 1886, uma equipe de seis pessoas: Bruno Clauser, Hahn, Jacob Schmalz, Otto Delitsch e mais dois sujeitos definidos como “dois alugados”, lideradas por Johann Paul Schmalz, um emigrante suíço e grande apreciador e conhecedor das belezas naturais da região, atingiram o ponto culminante da montanha, após três árduos dias de trabalho, abrindo trilha diante de uma mata extremamente fechada.
Durante o primeiro local de pernoite na montanha, Schmalz relatou: “Foi esse o pior local que até essa data servira de pousada a um de nós. Era tão estreito e inclinado que dava apenas espaço para se deitar. O lugar para o fogo só podia ser arranjado longe de nós. Água e lenha fomos buscar distante desse lugar. E somente por meio da corda comprida que trouxemos, podia-se descer para tirar lenha e a água do leito do ribeirão. Um verdadeiro abismo. Temos passado essa primeira noite no mato com muito perigo e quase sem dormir, por ser muito frio, e a lenha insuficiente para por meio do fogo sermos aquecidos”.
Após o pernoite mal dormido, no dia 4 de junho a equipe enfrenta o trecho mais íngreme da montanha, necessitando a utilização de cordas em alguns trechos, conforme Schamalz: “Daqui saímos, às 6h30m da manhã, com muita dificuldade e perigos, servindo-nos constantemente da corda. Subimos o barranco até chegar ao dorso o que nos permitiu um deslocamento fácil e sem necessidade da corda”...
Realizaram mais um pernoite já na crista final do Jurapé e no dia 5 de junho atingiram o cume do tão almejado pico, Schmalz e os membros de sua equipe ficaram encantados com o que viam do alto do Jurapê, segundo os relatos do próprio Schmalz:
“Foi sublime o momento em que pela primeira vez pisaram, gentes civilizadas, neste lugar, o morro mais alto de toda a costa da província. Viam-se as outras serras e cumes, muito abaixo, e nenhum da mesma altura. O panorama que nós tínhamos não pode ser descrito”.
“....Viam-se as outras serras e cumes, muito abaixo, e nenhum da mesma altura. O panorama que nós tínhamos não pode ser descrito... Nenhuma nuvem tem embaraçado a vista... Vimos, daqui, Joinville com todas as estradas da colônia, sem exceção; São Francisco, o mar, Ilha da Graça, Remédios, enfim, todas as ilhas até Paranaguá, de Guaratuba, barra do Itajaí, itapocuruí e todas as serras ao sul e ao oeste e a serra chamada “fim do mundo” ao N.O. que parecia a mais alta de todas...”
Animados com o feito a equipe de Schmalz acendeu uma fogueira do alto do Jurapê com objetivo de informar aos moradores que o Jurapê foi conquistado, Schmalz registrou a escalada colocando uma garrafa com uma carta em uma árvore no cume.
“... Às 9 h, ascendemos fogo e fizemos grande fumaça para sinalizar a nossa chegada. Porém, o vento forte não deixou a fumaça subir. Por isso foi mal percebida e só em poucos lugares. Como sinal da nossa chegada e desta primeira excursão, coloquei um frasco pequeno com rolha de vidro que continha uma carta de visita minha com a assinatura de todos os companheiros e a data da chegada, no arbusto mais alto (talvez três metros) que há no cume; entre dois galhos. Amarrei-o com fio e cobri com musgo para evitar que caísse antes de que o musgo, que aqui muito cresce, o fixasse nos galhos...”
Através desse breve texto comemorativo com fragmentos do relato de Schmalz gostaria de frisar a valorização da cultura de montanha em Joinville que está relacionada diretamente com a herança dos primeiros colonizadores europeus: suíços, alemães, noruegueses, poloneses, franceses entre outros. Eles introduziram o hábito de caminhar e contemplar as belezas naturais existentes na região, pois tudo era novo e o interesse pelo desconhecido estava despertado.
Diante de mais de um século de visitação, o Jurapê e seus habitantes sofrem diante da presença humana. Os principais impactos são decorrentes da visitação indevida da caça e extração de palmito.
No topo da montanha como a área de acampamento é limitada, árvores com elevado número de orquídeas e bromélias endêmicas dão lugar a novas clareiras. O acúmulo de resíduos também é um fator negativo advindo da má conduta humana nos ambientes naturais. As fogueiras também são as responsáveis pelas clareiras e corte de árvores desnecessárias por aventureiros despreparados.
Para que o Jurapé sempre possa presentear os visitantes com sua grandiosidade e beleza de sua floresta e mirantes, vamos praticar técnicas que minimizem os impactos da presença humana, deixando sempre o lugar sem vestígios.
Conheça e conserve esse grande patrimônio natural da humanidade.
Bons ventos.
Reginaldo J. de Carvalho
Freqüentador do Jurapê.

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